“Eu gosto é do meio-termo. Gosto de andar na corda bamba entre o céu e a terra, gritar baixinho e sussurrar alto, amar na medida certa, sem desperdiçar sentimentos. Gosto do chá morno, aquele que não queima a língua ou faz-me sentir arrepios tremelicando pelo meu corpo, gosto daquele abraço que conforta, mas não tira o ar, deixando aquele gostinho de quero mais, gosto do vento no meu rosto, mas não um vendaval que chega a levar a alma. Gosto do cheiro doce, mas com um toque amadeirado e do olhar que encara e depois demonstra um certo desprezo. Gosto de frutas cítricas, mas não azedas, o azedo me faz querer chorar, tira lágrimas dos meus olhos e causa indigestão. Doce demais me enoja, causa repulsa, seguida de uma cachoeira de água em meu organismo. Carinho em mim é o que não falta, mas gosto de mistura-lo com o ódio e dividi-los igualmente pra que ninguém se sinta amado demais. Gosto de sorrisos, mas não aqueles que dão câimbra na bochecha de tão tão longos, prefiro os simples, que causam uma leve felicidade e depois vão embora. Gosto do inesperado, mas surpresa demais assusta e causa pânico. Medo é bom, mas em excesso nos acua, criando uma proteção desnecessária. Gosto da linha do horizonte, que encontra o céu e o mar ao mesmo tempo, nada com os peixes e voa com as gaivotas. Gosto do quarto arrumado, mas se não tem uma roupa jogada no chão é arrumação demais, prefiro meu armário um pouco bagunçado e alguns poucos objetos pelo chão. Gosto das curvas que desenham meu corpo, mas elas se tornam cilíndricas demais a cada coca-cola que passa a fazer parte de mim. Gosto mais do triângulo equilátero que é gordo e magro, pequeno e grande e ainda tem equilíbrio entre seus lados. Comigo não é oito, nem oitenta. Prefiro o 36, que não é tão quente nem tão frio, nem tão alto nem tão baixo, nem tão velho nem tão novo. Tudo o que é demais acaba sendo desperdiçado. Prefiro o meio-termo, que tem a medida certa entre o excesso e a falta.”
— Comigo não é oito, nem oitenta. Prefiro o 36 (heartnes)